Agosto, 14h30, e uma transferência chamada "sry"
Uma tesoureira fecha a recolha da turma em junho, exceto por 8 euros. Depois chega agosto, e com ele a transferência mais curta do verão.
No dia 19 de junho, às 17h04, a recolha para a prenda da professora Beatriz fechou com 23 famílias pagas em 24. Faltavam 8 euros. Oito. Não noventa e oito, não oitocentos. Oito euros que se recusavam, com a teimosia de uma nódoa de tomate numa camisola branca, a sair da conta de alguém e a entrar na minha.
Escrevi no grupo da turma, com aquele tom que só se pratica em frente ao espelho antes de sair de casa: "Boa tarde a todos! Só a confirmar, ainda falta fechar a contribuição da prenda, quem puder tratar disso hoje era canja." Recebi catorze "vistos". Um coração. Nenhuma transferência.
Foi nesse momento, sem aviso e sem cerimónia, que a escola fechou portas para dois meses e meio, e os 8 euros entraram em hibernação, algures entre um IBAN por confirmar e a lista de compras de praia de uma família qualquer.
O saldo que foi de férias antes de mim
Achei, com aquela confiança ingénua de quem nunca fez isto antes, que resolvia "isto antes de ir para a praia". Fui para a praia. Levei o creme solar fator 50, uma toalha e o telemóvel com o MB Way aberto entre o mapa das marés e o grupo da família da minha cunhada.
Em julho mandei um lembrete simpático. Recebi um "sim sim, tá tudo bem, resolvo assim que puder", que traduzido do original significa nunca. Guardei os 8 euros na mesma gaveta mental onde já vivem o carregador que ninguém sabe de quem é e o código do alarme da casa de férias.
Não vou dizer a que família pertenciam os 8 euros. Nem interessa. Junho acaba sempre com a cabeça em água, e todos nós já fomos essa família em alguma conta de alguém, nem que tenha sido a quota do ginásio.
Pequeno desvio sobre andorinhas, sinalizado como tal
Digressão a sério, prometo que volto: por esta altura do ano há sempre alguém a dizer que "as andorinhas já partiram", como se elas tivessem calendário e tivessem confirmado presença num grupo qualquer. Não têm. Vão-se embora quando o corpo delas decide, sem avisar ninguém, sem ninguém a mandar um "boa viagem". E no entanto voltam sempre, na primavera seguinte, ao mesmo beiral, como se nada tivesse acontecido.
Pensei nisto deitada na areia, a olhar para um telemóvel sem notificações, e percebi que os 8 euros se estavam a portar exatamente como uma andorinha. Iam voltar. Só não sabia quando.
Voltando aos 8 euros, porque foi para isso que aqui viemos.
Um diálogo curto, reconstituído de memória
- Então e aquela família, já pagou? - perguntou-me o meu marido, que só sabe da existência da recolha porque me ouve suspirar para o telemóvel entre agosto e dois mergulhos.
- Não.
- Vais mandar outra mensagem?
- Já mandei duas. A terceira é assédio.
- Tranquilo, aparece.
Não apareceu. Não em julho, pelo menos.
14h30, um sábado de agosto
Estava sentada à sombra do guarda-sol, a decidir se acordava o meu filho para o gelado ou o deixava dormir mais um bocadinho, quando o telemóvel vibrou. Uma notificação. MB Way. 8,00 €. Assunto: "sry".
Três letras. Nem "desculpa", nem "obrigada pela paciência", nem um emoji de vergonha. Só "sry", solto ali, como quem deixa uma nota por baixo da porta e foge pela escada das traseiras antes que alguém abra.
Fiquei a olhar para o ecrã mais tempo do que o assunto merecia. Não por causa do dinheiro, que em agosto já não fazia falta a ninguém. Foi mais uma sensação de arqueologia ao contrário: um problema de junho, escavado e resolvido em pleno verão, sem testemunhas, sem festa, sem nada.
A recolha, já agora, tinha o saldo sempre visível para toda a turma, sem nomes ao lado dos euros, o que é uma sorte, porque assim ninguém além de mim sabe a quem pertence aquele "sry". Nem eu vou contar.
O anticlímax
Marquei os 8 euros como recebidos. Não houve mensagem de vitória no grupo, nem "por fim!", nem palmas. Fechei a aplicação e voltei para debaixo do guarda-sol.
O meu filho acordou dez minutos depois a exigir o gelado que lhe tinha prometido "já a seguir" há quarenta minutos, e essa negociação, essa sim, durou bem mais do que os 8 euros de junho.