A Guerra Santa Entre o Dinheiro Vivo e a Transferência
Uma tesoureira de turma no meio de duas civilizações, uma que paga em notas dobradas na mochila e outra que resolve tudo por MB Way antes do café.
Há muito tempo, numa turma muito, muito perto de ti, dezanove famílias dividiram-se em duas facções que nunca vão concordar em nada, e eu, tesoureira do 3.º ano por decisão alheia, fui nomeada a ponte entre ambas. De um lado, o Digital, que resolve a visita de estudo por transferência às sete da manhã, antes do café, com referência no descritivo. Do outro, o Analógico, que envia a filha à escola com uma nota de dez dobrada quatro vezes dentro de um envelope, dentro da mochila, ao lado de uma maçã.
Não é uma guerra. É só que às vezes parece uma.
O que a nota dobrada quatro vezes me faz sentir
A criança entrega-me o envelope com a solenidade de quem entrega um pergaminho. Dentro, dez euros, uma maçã que caiu em cima e deixou o envelope levemente húmido, e nenhuma indicação de quem é a mãe, o pai, ou sequer a turma certa. Guardo a nota, escrevo o nome no caderno, e faço figas para que a maçã não tenha estragado mais nada lá dentro.
Do outro lado do telemóvel, a mesma manhã: sete transferências bancárias, quatro MB Way, uma referência que diz simplesmente "obrigada" em vez do nome da criança, o que é simpático mas não me ajuda em nada às onze da noite quando estou a tentar bater a conta.
Pequeno desvio, assumido como tal, sobre pontes antigas
Li nalgum lado, sem que isso tivesse alguma relação com a visita de estudo, que as pontes romanas ainda de pé foram construídas sem argamassa nas juntas principais, só pedra bem talhada a encaixar em pedra, e aguentam até hoje o peso de coisas que os engenheiros nunca imaginaram passar por cima. Fiquei ali sentada, com o envelope da maçã numa mão e o telemóvel na outra, a pensar que sou basicamente isto, só que sem o mérito histórico.
Pronto. Volto à turma.
O momento em que as duas civilizações se encontram, ao vivo
- A Maria já pagou a visita?
- Já, mandei o envelope contigo, na terça-feira.
- Comigo? Eu não recebi nenhum envelope.
- Ai não? Estranho.
Encontrei o envelope na sexta-feira, dentro do meu próprio casaco, no bolso que uso para tudo menos para o que devia. Tinha estado ali a semana toda, ao lado de uma pastilha elástica e de um recibo do supermercado, enquanto eu jurava a mim mesma que nunca o tinha recebido.
A conta que nunca bate à primeira
No fim da semana tenho uma folha com duas colunas que nunca se cruzam: o extrato bancário, limpo e frio, e o meu caderno cheio de setas e nomes riscados, porque alguém pagou em dinheiro o que já tinha sido debitado do extrato há três dias, sem eu saber. Não é dinheiro a mais nem a menos. É só duas línguas diferentes a tentar contar a mesma história, e eu no meio, a fazer de tradutora sem ter estudado para isso.
Há noites em que consigo fechar as contas em vinte minutos. Há outras, como esta, em que passo quarenta minutos à procura de sete euros que afinal nunca desapareceram, só estavam na coluna errada.
Onde isto pousa, sem grande cerimónia
O que uso agora é só uma página com o IBAN da turma já lá escrito, cada família vê o valor e a data, paga por transferência normal a partir do banco de sempre, e eu deixo de comparar duas colunas às onze da noite. Não resolve as maçãs. Continuo a receber envelopes, e sinceramente já nem me importo, porque há qualquer coisa bonita numa criança de sete anos a levar dez euros dobrados como se fosse uma missão secreta.
Essa parte fica. A conta é que já não preciso de a fazer duas vezes.
Na sexta-feira seguinte, chegou-me outro envelope. Desta vez com uma pera.